Josias de Souza
Dilma Rousseff tornou-se uma presidente sui generis. Ela fala da conjuntura adversa que a rodeia como se não tivesse nada a ver com a ruína. Mal comparando, comporta-se como um oficial alemão que foi visitar o estúdio de Picasso durante a ocupação de Paris. Ao se deparar com uma reprodução de Guernica, aquele quadro que mostra a destruição da cidade espanhola na guerra civil, o oficial indagou: “Foi o senhor que fez isso?”. E Picasso: “Não, foram os senhores.”
A três dias do início do 5º Congresso Nacional do PT, Dilma Rousseff saiu em defesa do ministro Joaquim Levy, alvo preferencial do partido. Em conversa com a repórter Tânia Monteiro, ela disse considerar “injustas” as críticas ao ministro da Fazenda, porque o ajuste fiscal “não é responsabilidade exclusiva dele. Não se pode fazer isso, criar um judas.”
De fato, se o nome do problema fosse Joaquim Levy, a presidente resolveria com um golpe de esferográfica. Em verdade, para desassossego do PT, Levy é a tentativa de solução que Dilma encontrou para a encrenca econômica que ela própria produziu. De resto, aos olhos do eleitorado, a traição foi praticada pela inquilina do Planalto, que prometera na campanha presidencial reeditar o Éden.
Empenhada em mudar de assunto, Dilma injetou no seu vocabulário a palavra crescimento. “A retomada do crescimento começa com o ajuste e se complementa com medidas que vamos anunciar até agosto”, ela disse.
Nesta terça-feira (9), Dilma anunciará o novo plano de concessões, batizado de Programa de Investimento em Logística, o PIL. Ela enumerou as obras: “No Plano de Logística, tem quatro aeroportos, todos os portos, aeroporto regional… A ferrovia bioceânica [transoceânica] vai fazer parte do pacote, mas estamos concluindo os estudos e não temos noção integral ainda…”
São projetos que deveriam ter saído do papel há tempos. Mas Dilma, por incompetência e ideologia, sempre resistiu às concessões. Premida pela necessidade, parou de torcer o braço do capital. Por pressão da realidade, tenta fazer o que deixou de fazer por obrigação ou precaução.
Dilma gasta saliva também para alterar o rumo da prosa no noticiário policial. “Nós viramos uma página” na Petrobras, ela acredita. “A imagem da Petrobrás vai depender muito da vida dela daqui pra frente. A Petrobras recuperou a capacidade de produzir. Não que estivesse comprometida, mas não é fácil produzir pré-sal.”
Entre as realizações da estatal no ano de 2015, Dilma inclui a divulgação de uma escrituração feita com quase cinco meses de atraso. “Publicou o balanço após os problemas gravíssimos que a Lava Jato levantou”, ela celebra, com pose de espectadora distante.
Como ex-ministra de Minas e Energia, ex-chefe da Casa Civil e ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras, Dilma é uma espécie de Judas também no enredo da estatal petroleira. Ainda que outros tenham levado os trinta dinheiros.
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