Metralhadoras, adeus!
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Agora que o golpe militar de 1964 completa meio século, é impossível não lembrar o quanto era difícil fazer jornalismo nos anos de chumbo da ditadura. A partir de 1970, primeiro no Jornal o Estado de S.Paulo depois no Jornal do Brasil, eu era repórter de um setor que foi "batizado" de Direitos Humanos, formado por instituições que, em tese, não tinham nada a ver uma com a outra.
Em tese. Porque apesar da censura aos jornais, das ameaças de todos os tamanhos aos jornalistas, eu cobria a Arquidiocese de Olinda e Recife quando o arcebispo era dom Helder Câmara; a Auditoria da 7ª Circunscrição Judiciária Militar (7ªCJM); os presos políticos de Pernambuco e seus advogados; a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, a Polícia Federal e a Ação Católica Operária (ACO). Tempos difíceis. Mas trabalhava com a maior disposição, apesar do medo imenso.
Conheci as metralhadoras na ditadura. A primeira vez que vi uma, de perto, foi em setembro de 1969. Repórter do Jornal do Commercio, onde comecei no jornalismo, fui escalada para a saída de Gregório Bezerra da Casa de Detenção de Pernambuco. Ele foi um dos 15 presos políticos do País trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado por militantes de extrema esquerda sob o comando do então estudante Franklin Martins. Ele mesmo, o ex-ministro do governo Lula que sonha dia e noite em "regular" a imprensa.
Jornalista que não acabava mais, todos fomos obrigados a ficar na calçada em frente à Casa de Detenção e não podiamos nem descer o meio fio, alertavam os policiais armados de metralhadoras. Apavorada com as armas, resolvi não olhar para elas e assim consegui ficar até o final e voltar à redação. Estava tão nervosa que meu chefe, Aldo Paes Barreto, teve que conversar bastante comigo até eu me acalmar para escrever o que tinha acontecido.
Depois disso, por onde andava estava sempre encontrando uma metralhadora: nas greves de fome dos presos políticos, na Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, ou no Hospital da Polícia Militar, elas estavam por toda parte. Na Auditoria Militar, na Polícia Federal então, nem se fala, as armas ficavam na recepção do prédio. Um horror! Quando alguém chegava lá a primeira coisa que via era agente pegando armas ou entregando armas, uma sutileza de elefante. Até que um dia os jornalistas questionaram essa ameaça permanente e as armas saíram da recepção.
Em 1975, as metralhadoras, novamente. Agora apontadas para a sucursal do Jornal O Estado de S. Paulo, da guarita do Hospital do Exército, que ficava em frente, depois que o diretor Carlos Garcia foi preso. Durante os dois dias que ele ficou sendo torturado, as armas não saiam da guarita do Hospital enquanto eu e os outros funcionários do jornal trabalhávamos sob a mira delas.
No final dos anos 70 outra metralhadora no meu caminho. Um policial a apontava para minha bolsa, exigindo que eu mostrasse a identidade. Medo danado, um frio correndo pela costas, mas trabalho é trabalho e não tinha saída. Em plana luz do dia, na entrada de um prédio na Estrada do Arraial, Casa Amarela, a repórter do Jornal o Globo, Marisa Gibson e eu, do Jornal do Brasil, ali estávamos em busca de notícias sobre a prisão de clandestinos. Os subversivos, como eram chamados pelos agentes da ditadura, todas as pessoas que discordavam do regime e lutavam por liberdade.
Na mira da metralhadora, assistimos os policiais carregarem livros e documentos dentro de lençóis e o medo só aumentava. A gente começou a temer que poderíamos ser presas porque éramos testemunhas do trabalho deles, que se negavam a nos dar informações. Diziam apenas que devíamos procurar a Superintendência da Polícia Federal e mais nada.
Foram presos naquele dia o veterinário Valmir Costa, o operário metalúrgico Edilson Freire Maciel, a estudante Maria Aparecida dos Santos e a pediatra Selma Bandeira Mendes. Eram procurados pela ditadura sob acusação de tentarem reorganizar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e foram os primeiros a serem beneficiados pela Lei da Anistia, sancionada no dia 28 de outubro de 1979 pelo general João Batista Figueiredo.
Aqui uma história singular, para a época: o juiz auditor militar Theódulo Miranda , da 7º CJM, recebia a imprensa diariamente. Naquele 28 de outubro de 1979, os jornalistas que davam cobertura à auditoria já se preparavam para sair, sem notícias, quando ele pediu que esperássemos alguns minutos que teria uma notícia "quente". E tinha mesmo: ao ser informado por um amigo de Brasília, que o presidente acabava de sancionar a Lei da Anistia, ele expediu o alvará de soltura para os primeiros presos beneficiados: Valmir Costa, Edilson Freire Maciel, Maria Aparecida dos Santos e Selma Bandeira Mendes. E também revogou os mandados de prisão expedidos contra 101 pessoas, entre elas Miguel Arraes, Francisco Julião e Gregório Bezerra.
Ele passou para a história como o primeiro juiz militar a libertar os presos políticos. E nós iniciamos ali uma longa jornada para cobrir em detalhes a saída dos primeiros anistiados e de todos os outros que vieram em seguida. Aí não teve mais metralhadoras pelo caminho.