Josias de Souza

Em ofício endereçado ao ministro do Supremo Luís Roberto Barroso, a Polícia Federal pediu mais dois meses para concluir o inquérito sobre portos. Envolve Michel Temer, seus amigos, familiares e empresários do setor portuário. Relator do caso, Barroso requisitou a manifestação da procuradora-geral da República Raquel Dodge. Se o pedido for atendido, a investigação caminhará junto com o calendário da hipotética candidatura de Temer, pois o presidente informou aos seus aliados que decidirá apenas em meados de junho se disputará ou não a reeleição.
Até correligionários de Temer consideram sua candidatura improvável. Contudo, alheio à tese segundo a qual quem escolhe o momento exato economiza muito tempo, o presidente protela sua saída de cena. Com isso, arrisca-se a ser empurrado para fora do palco por uma eventual terceira denúncia criminal. Os investigadores pedem mais tempo para aprofundar a análise dos dados colecionados em batidas de busca e apreensão nas casas e escritórios dos investigados e na quebra dos sigilos bancários, inclusive o de Temer.
A investigação inclui uma transação imobiliária feita entre a primeira-dama Marcela Temer e José Yunes, ex-assessor da Presidêcia e amigo de Temer desde os tempos de faculdade. Vareja-se também uma reforma na casa de Maristela Temer, filha do presidente —coisa tocada com dinheiro vivo pela arquiteta Maria Rita Fratezi, mulher do coronel aposentado da PM paulista João Baptista Lima, uma espécie de ‘faz-tudo’ de Temer.
A julgar pelas apreensões de seus correligionários, Temer parece viver um paradoxo. Seus amigos mais antigos avaliam que sua candidatura não tem futuro. Mas o presidente se comporta como se não tivesse um passado. A história ensina que, em política, quem tem muitos calos não deve se meter em apertos.


