sexta-feira, 22 de maio de 2015

Histórias vividas e contadas por Magno Martins


Histórias de repórter

Postado por Magno Martins
A campanha para governador de Pernambuco em 1990, na qual coordenei a área de Imprensa de Joaquim Francisco, vitorioso no primeiro turno com uma diferença de menos de 1%, foi, sem dúvida, uma das mais ricas experiências profissionais que tive ao longo das últimas três décadas de batente. Ocorreu de tudo, com um detalhe: a contrapropaganda mais parecia uma guerrilha eleitoral.

Joaquim representava o novo. Vinha de uma gestão amplamente aprovada como prefeito do Recife. Varreu o Estado com a chamada Onda amarela, para combater o vermelho, símbolo da esquerda protagonizada muito bem pela figura de Jarbas Vasconcelos. Uma das figuras centrais foi o então governador Miguel Arraes, que renunciou para disputar um mandato de deputado federal dias após filiar-se ao PSB, onde abrigou o seu grupo político reduzindo ainda mais o alcance de seu antigo partido, já abalado pela morte de Marcos Freire, há três anos.

Outro efeito colateral dessa mudança foi o distanciamento progressivo entre Miguel Arraes e Jarbas Vasconcelos, embora estivessem formalmente no mesmo palanque cabendo ao último reagrupar o PMDB em torno de si. Favorecido pelas questões internas que pesavam sobre seus adversários o PFL se recompôs e passou a ocupar a Prefeitura do Recife com Gilberto Marques. Eleito, Joaquim puxou o senador Marco Maciel e ainda elegeu as maiores bancadas de deputados federais e deputados estaduais.

Arraes cuspia fogo contra Jarbas para se vingar da eleição de 1982, quando foi preterido, perdendo a indicação para Marcos Freire. No PSB, montou uma chapinha para federal e com sua votação estupenda – teve 339.158 votos – arrastou mais cinco federais com votações inexpressivas, como Roberto Franca, o último da chapinha, com 3.256 votos.

Nas ruas, antes e depois dos atos de campanha, pontilhados por grandes passeatas e comícios, militantes amarelos se agrediam com os vermelhos. Materiais de campanha de ambos os candidatos eram depredados, incendiados e desapareciam misteriosamente. O guerrilheiro de Joaquim atendia pelo nome de Heráclito Cavalcanti, que mais tarde veio a se eleger vereador do Recife.

Quando a rua esquentava era a Heráclito, que tinha coragem de mamar em onça, que Joaquim recorria. A mais polêmica contrapropaganda exibia um Jarbas violento, com passados de conflitos familiares. Contra Joaquim, panfletos sugerindo que era dedo duro do regime. Enfim, uma campanha incendiária.

O guerrilheiro de Jarbas atendia pelo nome de Carlos Eduardo, o Cadoca. Então vereador do Recife, Cadoca assumiu a coordenação geral da campanha e para fazer seu candidato triunfar não tinha limites. A estratégia eleitoral e o tom da campanha foram dados por ele, personagem de absoluta confiança de Jarbas, fundador do PMDB, militante histórico de esquerda.

Cadoca montou uma operação de guerrilha, escolhendo a dedo militantes com extrema habilidade para atuar em todas as tarefas que uma campanha exige, até como espiões do adversário. Em todos os atos de campanha de Joaquim os arapongas estavam lá disfarçados, passando informações preciosas. Mas não satisfeito com os resultados que colhia na bisbilhotagem, Cadoca chegou a dar uma de repórter-fantasma.

Naquela época sem celular, recorreu a um aparelho de telefone convencional, colocando um pano para disfarçar a voz, ligou para o setor de comunicação da campanha de Joaquim para me localizar. A secretária passou a ligação dizendo tratar-se de um repórter do Jornal do Brasil, que era a grife da mídia nacional impressa, tendo, inclusive, sucursal em Pernambuco.

Não tive dúvidas nem desconfiei. Atendi e lembro que bati um longo papo, mas não consigo lembrar o conteúdo da conversa. Nunca imaginei que a radicalização chegaria a esse ponto. Cadoca iria levar esse segredo de estado para o túmulo.

Mas leitor atento desta série sobre minhas vivências de repórter, Cadoca acabou me revelando o episódio, ontem, num longo e descontraído papo nos corredores da Câmara dos Deputados, autorizando-me a tornar público.

Campanha tem dessas coisas. Não posso incriminar meu amigo Cadoca. Longe disso! Faz parte do jogo. Já dizia Agamenon Magalhães que em política, feio é perder.

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