
O paraíso existe. No coração da caatinga, a 1,1 mil metros acima do nível do mar, está encravado o hotel do Sesc, em Triunfo, a Gramado nordestina, 405 km do Recife. Esta imagem panorâmica dá a exata noção da sua plenitude. De longe, lembra um resort e tem quase estrutura para tal. Só falta uma piscina aquecida no seu parque aquático.
Para quem viaja de férias com crianças, como eu, o que não falta é diversão para os baixinhos. As recreações vão da piscina mirim ao pulmão verde do hotel, para que a garotada tenha contato com a natureza. Julho, mês de férias, o hotel está lotado. Turistas em sua grande maioria do Nordeste, mas encontrei paulistas e sulistas também.
A comida, de boa qualidade e quantidade, é caseira. Pratos regionais. Tem bode, galinha de capoeira e carne de sol. No café, tapioca, munguzá e frutas da época. O atendimento é top. Os apartamentos, maravilhosos, têm varanda com a bela vista da cidade lá embaixo. Trunfo é charmosa, com bons restaurantes, cafés, bares e seis museus, além da maior atração: um teleférico, com estação central ao lado do açude, um dos cartões postais da cidade, em direção ao Sesc.
O açude, aliás, é povoado de lendas. A mais famosa relata que uma recém-nascida foi jogada no açude por uma mulher que engravidara sem se casar e queria se ver livre do bebê. Contudo, ao cair na água fria e escura, a menina não morreu.
Por obra de um misterioso encantamento, transformou-se em serpente gigante, cheia de escamas reluzentes. Anos depois, já no tempo em que padres promoviam missões religiosas e percorriam as cidades nordestinas abençoando os fiéis e pregando as rezas e penitências para salvação das almas, a criatura fez uma aparição medonha.
Um padre missionário celebrava uma missa na igreja matriz e avisou ao povo que iria acontecer uma coisa muito estranha, raramente vista pelos pecadores, imagem que em tudo lembraria o Livro do Apocalipse, a parte mais sombria das Sagradas Escrituras. O religioso provavelmente havia sonhado com tal ocorrência insólita depois de uma noite entregue às orações, com as contas do terço nas mãos.
No momento em que o padre esboçava sua profecia, a tal serpente saiu ligeira do açude e foi até a igreja. O monstrengo procurou na multidão uma mulher chamada Celina, que, silenciosa e contrita, estava sentada entre os fiéis participantes da celebração. A gigantesca cobra achou-a no meio do povaréu, abriu num bote o decote do vestido da mulher e mamou no seio dela.
Mamou como recém-nascido que descobre o aconchego da mãe. Num instante, a serpente virou uma criança – a menina jogada ao açude – e desapareceu por encanto.
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