Com edição de Ítala Alves
Extremamente poluído, estuário de esgotos da falta de saneamento do Recife, o Rio Capibaribe, que João Cabral de Melo Neto poetizou de Cão sem plumas, num soneto antológico, agoniza sob o silêncio e a omissão do poder. Mas ainda está vivo, mesmo na UTI aberta entre as pontes que dão charme à Veneza tropical.
Nos meus 6 km diários da corrida matinal me deparei, há pouco, com uma cena cada dia mais rara: pescadores tentando, com a sorte lançada em anzol, colher o peixe para saciar a fome. Manoelzinho exibiu esse Camurim, arrastado das águas poluídas do Capibaribe.
Uma prova de que o Rio ainda não morreu. Já li Guimarães Rosa dizer que um rio não quer chegar a lugar algum, só quer ser mais profundo. O Capibaribe ainda é profundo como ventre dos peixes grandes e pequenos, que pululam em suas margens e são garfados pelos que têm fome e, pacientemente, esperam a lua, cansada, adormecer por instantes no leito do rio.
Antes de desaguar no Oceano Atlântico, o Cão sem plumas passa pelo centro do Recife e chega ao Agreste. O Rio deu voz e verso a João Cabral de Neto em sua Morte e Vida Severina porque sua família viveu por anos próximo às margens dele, onde o poeta costumava brincar.
O Capibaribe nasce na serra de Jacarará, no município de Poção, e tem 248 km de extensão, com uma bacia de, aproximadamente, 7.454,88 quilômetros quadrados. São cerca de 74 afluentes, banhando 42 municípios pernambucanos, entre os quais Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe, Surubim, Cumaru, Salgadinho, Limoeiro, Carpina, Paudalho, São Lourenço da Mata e Recife.
Próximo à foz, divide a área central da cidade do Recife e atravessa os bairros da Várzea, Caxangá, Apipucos, Monteiro, Poço da Panela, Santana, Casa Forte, Torre, Capunga, Derby, Madalena. Por fim, faz confluência com o rio Beberibe atrás do Palácio do Campo das Princesas antes de desaguar no oceano Atlântico. Seu braço sul passa por Afogados, ilha do Retiro, rumo à ilha Joana Bezerra, juntando-se ao rio Tejipió e chegando à foz no porto do Recife.
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