quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Na ONU, Temer discursa como um fake estadista

Por Magno Martins 

Josias de Souza

Em plena era da fake news, Michel Temer pronunciou na abertura da sessão de debates da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o discurso de um fake estadista (veja a íntegra). Redigida a muitas mãos, a fala baseou-se em verdades paralelas. Acomodaram-se nos lábios de Temer as declarações que convinham ao orador, sem preocupações com o desmentido dos fatos.

O suposto presidente do Brasil declarou coisas assim: “Restauramos a credibilidade da economia”. Ou assim: “Devolvemos o Brasil ao trilho do desenvolvimento.” Na volta, Temer não pisará apenas o solo brasileiro. Ele devolverá a sola dos sapatos à realidade. Não uma realidade qualquer, mas a rotina de um dos governantes mais abominados do planeta. Sua taxa de desaprovação, medida em pesquisa divulgada pelo Ibope na semana passada, bateu em 90%.

Ou seja: na avaliação de nove em cada dez brasileiros, o Temer que discursou na ONU é uma falsa criatura. O Temer verdadeiro virou sujeito oculto na campanha presidencial. Henrique Meirelles, seu ex-ministro da Fazenda, hoje presidenciável do seu partido, o MDB, trata Temer como lixo hospitalar. Foge do contágio.

O fake Temer soou ainda mais parecido com um estadista nos trechos em que verbalizou ideias abominadas pelo orador que o sucedeu na tribuna, Donald Trump. Na contramão do presidente dos Estados Unidos, Temer defendeu o multilateralismo, criticou o protecionismo e pregou o acolhimento aos refugiados. Seria um belo discurso se os lábios que o pronunciaram merecessem respeito.

O problema de Temer é que tudo virou epílogo na sua biografia depois do grampo do Jaburu. A partir de 1º de janeiro, quando dará posse ao sucessor, Temer será transportado para outro mundo. Nele, não haverá plateias de chefes de estado, mas delegados da Polícia Federal e juízes. Os discursos na ONU serão substituídos por interrogatórios.

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