quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Língua de Temer precisa ser contida por senha

Por Josias de Souza


Se Deus tiver de aparecer para os refugiados, não se atreverá a aparecer em outra forma que não seja a de uma porta aberta. A porta é a primeira coisa que o refugiado enxerga. Ela prepara os deserdados da sorte para o que vão encontrar dentro do país de refúgio. Nesta quarta-feira, Michel Temer informou que seu governo cogita trocar a tabuleta que está pendurada na porta. Em vez do “entre sem bater”, os refugiados lerão algo assim: “Quer entrar? Pegue a senha e entre na fila”.

Em abril, a governadora de Roraima, Suely Campos (PP), pediu ao Supremo Tribunal Federal o ''fechamento temporário da fronteira Brasil-Venezuela.” Temer subiu no caixote: ''Fechar a fronteira é incogitável''. O presidente refugou também a ideia de impor limitações à entrada de venezuelanos. A União prevaleceu na Suprema Corte.

No último dia 8 de agosto, em reação a um juiz de Roraima que mandara fechar as fronteiras para os refugiados da ruína produzida por Nicolás Maduro, Temer ordenou à Advocacia-Geral da União que recorresse ao Supremo para derrubar a ordem judicial. De resto, mandou o ministro Gustavo Rocha (Direitos Humanos) reiterar em nota que o bloqueio da fronteira é “inegociável”. A ministra Rosa Werner, do Supremo, mandou reabrir a porta.

Subitamente, Temer mudou o tom de sua prosa. Nesta quarta-feira, em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco, disse que o governo pode limitar a entrada de venezuelanos. Como? Distribuindo senhas. “Outra providência que talvez venha a ser tomada, e ontem foi objeto de conversações, é a de quem sabe colocar senhas de maneira que entre 100, 150, 200, por dia, e cada dia entre um determinado número para organizar um pouco mais essas entradas.” Hoje, entram diariamente no Brasil algo como 700 venezuelanos.

Num intervalo de quatro meses, Temer migrou do fechamento de fronteiras “incogitável”, reiterado há 21 dias como ''inegociável'', para o controle por meio de senhas. O que mudou em tão pouco tempo? Nada. Verifica-se que a taxa de inépcia do governo não aumentou. Continua nos mesmos 100%. Antes de impor constrangimentos aos refugiados, Temer talvez devesse fechar as fronteiras dos próprios lábios, limitando suas declarações por um sistema de senhas.

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