Josias de Souza

No momento, o maior inimigo de Rodrigo Janot é o relógio. Se pudesse, o procurador-geral da República atrasaria os ponteiros. Como não pode, cuida dos minutos, porque suas horas passam. Janot dispõe de menos de 12 dias para tentar livrar o acordo de colaboração judicial do Grupo JBS das impurezas que o enodoam.
Ou Janot faz a limpeza, vendendo-a como evidência de que “não se pode ludibriar impunemente o Ministério Público e o Poder Judiciário”, ou transferirá a higienização à sucessora Raquel Dodge, uma crítica reservada dos termos do acordo firmado com a JBS. Se não agir até 17 de setembro, quando expira o seu mandato, Janot passará à história como um xerife ludibriado.
Janot sabia onde pisava quando menosprezou a virada de casaca de Marcelo Miller, o amigo que era procurador da Lava Jato e amanheceu um certo dia como sócio de uma banca advocatícia privada, a serviço da JBS. Chegou mesmo a justificar o injustificável. Miller negociara o acordo de leniência do conglomerado, não a delação, dissera Janot, sem se dar conta de que negligenciava um escândalo.
De repente, uma trapaça do destino atravessou na trilha de Janot a gravação na qual os delatores Joesley Batista e Ricardo Saud admitem que o acordo que lhes rendeu a imunidade penal tem as digitais da mão grande de Marcelo Miller. E Janot descobre da pior maneira que, às vezes, o escândalo é tão escancarado que é impossível não reagir, mesmo que seja com uma pantomima.
Feita a lambança, Janot tenta tomar a toque de caixa as decisões que escolheu não adotar entre a notícia sobre a movimentação de Miller nas coxias da JBS e o surgimento do áudio tóxico –uma gravação desastrada, que os próprios delatores enfiaram no meio do papelório entregue à Procuradoria na semana passada, como complemento de sua delação.
Janot ganhou um estímulo extra para agir. Ele sabe que a sucessora Raquel Dodge não hesitará em adotar as correções que ele deixar de fazer. A essa altura, não há mais espaço para a preservação da imunidade penal concedida aos criminosos da JBS. O que se discute é se Joesley e Cia. serão presos logo ou mais adiante. A responsabilização do ex-procurador Marcelo Miller tornou-se imperiosa.
Contra esse pano de fundo, a segunda flechada de Janot em Michel Temer, por mais forte que seja, parecerá um asterisco se o processo da delação não estiver saneado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário