sábado, 3 de junho de 2017

Menina salva livros e vira personalidade nas redes sociais




Postado por Magno Martins

A lição da salvadora de livros

Em dois dias de incursão aos municípios atingidos pelas fortes chuvas entre o Litoral, a Mata Sul e o Agreste abriram-se as cortinas diante de mim para assistir a um filme de horror. Homens, mulheres e crianças, que perderem tudo e, principalmente, suas casas, socorridas e lavadas para escolas improvisadas como abrigos, pareciam vítima de um tsunanime. Não dá para comparar, com o que aconteceu em 2010, mas o rastro é doloroso. Até ontem, mais de 45 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas.

No último fim de semana, em apenas dois dias, choveu muito mais do que em 2010, mas os estragos foram menores porque uma das barragens de contenção – a de Serro Azul, em Palmares – evitou tragédia semelhante a que se deu há sete anos. Não fosse o reservatório, o único concluído dos três programados, a cidade de Palmares, certamente, teria sido completamente inundada, o que não se deu. Mesmo assim, os estragos em Catende, Rio Formoso e Belém de Maria, principalmente, são de cortar o coração.

O Agreste Setentrional também foi, igualmente, atingido, mas não na proporção da Mata Sul. Em Caruaru, por exemplo, onde o Rio Ipojuca na sua agressividade arrancou até carros, matando uma mulher de 48 anos, cujo corpo só foi achado ontem depois de sete dias, o Morro do Bom Jesus sofreu danos irreparáveis, com dezenas de famílias perdendo suas casas.

O biscateiro Valdir Luiz, que mora em cima do morro, numa das áreas mais difíceis de acesso, perdeu sua casa, assim como seu irmão e dois primos. Ele estava inconsolável. “Onde vou morar agora? Não tem ninguém para me ajudar”, disse ele, com os olhos lacrimejando. No bairro da Cohab, uma passagem molhada que liga os bairros José Liberato a Rendeiras, virou uma cratera, impedindo o acesso de carros.

Ao longo dos últimos dias de dor e agonia, nada mais sensibilizou o País, entretanto, do que a foto de uma menina de oito anos sendo resgatada da enchente em São José da Coroa em uma jangada agarrada a uma mochila. Quando a cheia invadiu a casa da criança, identificada apenas como Rivânia, a avó recomendou que ela salvasse das águas o mais importante.

A garota correu e colocou todos os seus livros dentro de uma mochila colorida, deixando para trás brinquedos e roupas. Ajoelhada na jangada, Rivânia aparece nas fotos abraçada com a mochila. De acordo com testemunhas, a criança ficou assim até que todos estivessem salvos: ela e os livros. Criada pelos avós Maria Ivânia e Eraldo Luís, Rivânia mora no distrito de Várzea do Una, no município de São José da Coroa Grande.

A família de Rivânia já voltou para a sua residência, mas está em situação precária. Eles moram no imóvel há três anos e essa teria sido a primeira vez em que foram atingidos por uma enchente. Agora, passado o susto, eles pensam em deixar o local. Nas redes sociais, várias pessoas elogiam a atitude da menina e ainda falam em ajuda: “A melhor de todas as imagens. Que Deus possa iluminar os caminhos dessa criança, colocando-lhe a fé o amor e a sabedoria. Ela já é uma guerreira”, escreveu um leitor.

“As crianças são o futuro do Brasil! Que Deus te abençoe, e proteja todos os que estão precisando de ajuda nesse momento tão difícil”, comentou outro. “E as lágrimas não param de cair. Aqui em Barra de Sirinhaém não teve enchentes, mas eu sinto a dor dos meus coleguinhas das cidades vizinhas. O cenário de guerra é desolador”, acrescentou outro morador.

Na verdade, Rivânia, que poderia ter salvado suas bonecas de estimação ou outros brinquedos, além das suas roupas, deu uma lição à humanidade e merece um livro em sua homenagem intitulado "A menina que salvava livros”.

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