Josias de Souza
No
primeiro turno da eleição municipal, Lula votou em São Bernardo do
Campo. Estava acompanhado de sua mulher, Marisa, do prefeito petista
Luiz Marinho e do candidato do PT à prefeitura da cidade, Tarcísio
Secoli. Na saída, Lula fez uma aposta alta: “O PT vai surpreender nesta
eleição”. Disse meia dúzia de palavras sobre a disputa na capital
paulista: ''Se o povo de São Paulo tiver o orgulho que pensa que tem, se
tiver a inteligência que pensa que tem, ele não tem outra coisa a fazer
que não seja votar no [Fernando] Haddad''.
Todos já sabiam que o
PT estava à beira do abismo. Mas ninguém poderia supor que o morubixaba
da legenda fosse pisar voluntariamente no sabonete. Em São Bernardo,
Secoli não foi para o segundo turno, que será disputado por dois aliados
do tucano Geraldo Alckmin: Orlando Morando (PSDB) e Alex Manente (PPS).
Em São Paulo, sucedeu algo mais dramático. Além de ficar pelo caminho,
Haddad assistiu ao triunfo do tucano João Doria, afilhado de Alckmin, no
primeiro round. Coisa jamais vista na capital. Nacionalmente, o PT foi
dizimado.
Lula ficou numa situação análoga à do apostador que
deixa as calças sobre o pano verde e abandona o salão de jogos sem
dinheiro para o ônibus. Queimaram-se os fusíveis da intuição lendária do
grande guia dos povos. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Lula
parece mesmo decidido a provar que é errando que se aprende… A errar.
Resolveu que, neste domingo, não irá votar. Sua ausência foi confirmada
pelo Instituto Lula. Ele acaba de completar 71 anos. E alega que a lei
desobriga os septuagenários de votar.
Curioso, muito curioso,
curiosíssimo. No primeiro turno, Lula fora vaiado e aplaudido na sessão
eleitoral em que votou. Acionou seus tímpanos seletivos. ''Eu não ouvi
vaias. Era tanto aplauso! É como quando o Corinthians vai jogar, mesmo
sendo no Itaquerão. Tem sempre meia dúzia de torcedores do outro time.
Pergunta se o jogador ouve vaia. Só ouve aplausos.'' Agora, excluído da
partida, age como garoto mimado. Se pudesse, interromperia o jogo,
levando a bola para casa. Por sorte, nas democracias a bola pertence ao
eleitor.
Lula gostaria de ser candidato à Presidência em 2018.
Mesmo que sua situação penal o exclua dessa briga, como democrata que
diz ser deveria respeitar a divergência, abstendo-se de desqualificar as
opções alheias com atitudes desnecesárias. Do modo como passou a agir,
pode empurrar até as pessoas que ainda tentam admirá-lo para uma
conclusão inexorável: quem acha que não tem idade para votar já está
velho demais para ser votado.
Na fatídica entrevista em que
vaticinara o desempenho surpreendente do PT, Lula desdenhara dos efeitos
do petrolão sobre as urnas. Rosnara para a conjuntura: ''Quanto mais
ódio se estimula contra mim, mais amor se cria. Essa gente vai se
surpreender porque, a partir dessas eleições, eu vou começar a andar
pelo Brasil…” Sem saber como ficará o seu direito de ir e vir depois que
a Lava Jato decidir o seu futuro, Lula Faria um bem a si mesmo se
andasse do seu apartamento, em São Bernardo, até sua zona eleitoral. Não
resolve o fiasco do PT. Mas evita o constrangimento de sair da eleição
municipal de 2016 pela porta do fundo.
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