Josias de Souza
A
Comissão do Impeachment encerra seus trabalhos nesta quinta-feira com a
aprovação do relatório em que Antonio Anastasia (PSDB-MG) recomenda a
deposição de Dilma Rousseff. A essa altura, a comissão acumula perto de
240 horas de debates. Há pouco por dizer. Na sessão da véspera, os
senadores Humberto Costa (PT-PE) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) esgotaram
o repertório de provocações numa troca de farpas que injetou no debate o
que faltava: uma barata, inseto ortóptero, da família dos batídeos; e
os ratos, roedores da família dos murídeos.
Ex-líder de Dilma no
Senado, Humberto Costa pressionou uma vez mais a tecla preferida do
petismo. “Estamos vivendo um golpe”, ele reiterou. Insinuou que a
eventual confirmação do afastamento de Dilma pelo plenário do Senado
banalizará o instituto do impeachment. A pretexto de reforçar seu
argumento, Humberto construiu uma analogia inusitada. Deixou Dilma em
posição, digamos, kafkiana:
Líder do PSDB, Cássio Cunha Lima como que dobrou a meta,
para utilizar expressão ao gosto de Dilma. Incluiu na prosa outras
fúnebres criaturas.
A certa altura, Cássio mencionou “as delações e mais
delações que confirmam na Lava Jato que a campanha de Dilma Rousseff foi
financiada com dinheiro do petrolão.” O petista Lindbergh Farias (RJ),
destacado membro da infataria de Dilma, interveio:
— E o que falam do PSDB nas delações, senador Cássio, Vossa Excelência esqueceu?
Os
jornais do dia traziam a notícia sobre o suborno de R$ 10 milhões que o
ex-senador tucano Sérgio Guerra, já morto, recebera para sufocar uma
CPI da Petrobras em 2009, época em que era presidente do PSDB federal.
Cássio não se deu por achado:
— Aqueles que cometeram crimes nos
partidos A, B ou C que paguem pelos seus crimes. Que possamos encerrar
esse processo, que possamos dar cabo desse julgamento. Quanto mais
esticarmos isso, mais o país vai ficar nessa situação de
instalibilidade.
Baratas e ratos não são privilégios feios do
Brasil. São universais. A diferença é que, nessa terra de palmeiras, por
muitos anos, os personagens que se comportavam como legítimos
representantes das famílias dos batídeos e dos murídeos continuavam
atuando na política como se nada tivesse sido descoberto sobre seus
hábitos. De raro em raro, quando as luzes acendiam, essas criaturas
ziguezagueavam e escapavam. Não havia vassourada que as alcançasse.
A
Lava Jato interrompeu um ciclo. A despeito de suas sensíveis hastes e
do seu couro cascudo, a oligarquia política e empresarial migra
gradativamente dos gabinetes do poder, das colunas sociais e da editoria
de política para a cadeia. Num futuro próximo, a força-tarefa de
Curitiba pode figurar nos livros de história como um ponto fora da
curva. Mas, por ora, o brasileiro está achando tudo o maior barato.
Embora
Dilma e o PT abominem a expressão “conjunto da obra”, madame será
enviada mais cedo para casa justamente porque, sob sua fama de gerente
impecável, proliferaram a ruína econômica e a desfaçatez ética.
Beneficiário direto da conjuntura, Michel Temer governa com a
tranquilidade de quem dança um minueto à beira do precipício.
A
Lava Jato já não permite que o PMDB e assemelhados sejam indultados por
um surto qualquer de amnésia combinada. Enquanto prepara o “tchau” de
Dilma, Brasília vive a neurose do que está por vir depois que os
investigadores extraírem a derradeira gota de suor do último dedo da
Odebrecht.
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