sexta-feira, 26 de junho de 2015

Votações do Congresso viram balé de elefantes


Josias de Souza



Os supostos aliados do governo no Congresso adotaram como lema uma frase de John Kennedy virada do avesso. O ex-presidente americano disse aos seus compatriotas: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.” Os parlamentares governistas gritam para Dilma: “Não pergunte o que podemos fazer por você. Pague as emendas orçamentárias, assine as nomeações e vê se não chateia.”

A Casa Civil de Aloizio Mercadante retém nomeações que a articulação conduzida por Michel Temer prometeu. E a Fazenda de Joaquim Levy sentou em cima de algo como R$ 5 bilhões em emendas cuja liberação os governistas exigem. Com a lealdade a Dilma já bem cansada, os congressistas transformam as votações num bale de elefantes. No penúltimo movimento da coreografia, a Câmara estendeu o reajuste do salário mínimo a todos os aposentados.

Entre todos os espantos que a decisão suscita, o mais surpreendente foi a súbita conversão de Eduardo Cunha em heroi da resistência. Líder da manada, o presidente da Câmara disse que os elefantes rebeldes passaram dos limites. “Essa aprovação realmente causa um prejuízo ao país, foi feita de forma equivocada. É bom que se chame à consciência de que tudo tem um limite.”

Cunha soou assim, compreensivo, porque está muito bem atendido noutra votação, relatada por seu pupilo Leonardo Picciani, líder do PMDB. A mesma Fazenda que faz jogo duro nas emendas, amoleceu na negociação que resultou na exclusão de certos setores econômicos do projeto que reonera a folha salarial que o governo havia desonerado. O texto-base dessa proposta foi aprovado na noite de quarta. As emendas estão sendo analisadas nesta quinta.

Com FHC e Lula a rotina do governo era mais tranquila. O Planalto remunerava a fidelidade e contava os votos. Sob Dilma, a Presidência perdeu sua capacidade de persuasão. Nos tempos de popularidade confortável, a presidenta sapiens tratava os aliados a pontapés. Hoje, com a taxa de aprovação na irrisória marca dos 10%, Dilma colhe a tempestade perfeita semeada pelos ventos que ela soprou.

Na oposição, PSDB e seus satélites comportam-se como o PT dos velhos tempos. Mandam às favas a racionalidade. É prejudicial ao governo? Sou a favor. Quanto aos governistas, podem ser contra ou a favor de qualquer coisa. Desde que recebam o combinado. O aceno aos aposentados vai custar R$ 9 bilhões? Pois que Dilma vete, arrostando o preço da impopularidade.

Aqui, a íntegra da lista de votação da emenda que estendeu a todos os aposentados as mesmas regras de reajuste do salário mínimo.

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