sexta-feira, 29 de maio de 2015

Histórias contadas pelo jornalista Magno Martins.


Histórias de repórter (17)

Postado por Magno Martins
A revelação de que Marco Maciel está com Alzheimer, em fase bastante avançada, feita por este blogueiro, causou uma grande repercussão. Foi no Governo de Marco Antônio, como assim o tratava Moura Cavalcanti, segundo o companheiro Eduardo Ferreira, que consegui meu primeiro estágio.

Estudante de Jornalismo na Unicap, fui indicado por Carlos Cavalcanti, já falecido, que editava Polícia no Diário de Pernambuco e trabalhava no Governo também (naquela época jornalista costumava ter três a quatro empregos por causa dos baixos salários). Maciel não tinha fama por acaso de devotado ao trabalho.

Seus expedientes no Palácio do Campo das Princesas varavam a madrugada. Secretário preguiçoso não tinha vez na sua equipe. Aloísio Sotero, secretário de Agricultura, foi acordado certa vez por volta de uma hora da madrugada. Em reunião no Palácio, Maciel queria checar um dado com ele que considerava imprescindível.

Mas não conseguiu. E sua reclamação naquela madrugada virou folclore, entrando para o anedotário da política pernambucano quando disse: “Sotero é muito competente, mas só tem um defeito: muito dorminhoco”.

Em 1984, quando convidado pelo jornalista Angelo Castelo Branco, então secretário de Imprensa do Governo de Pernambuco, para viajar com Marco Maciel na condição de repórter da sua campanha presidencial no Colégio Eleitoral, quase recuso. As notícias de que ele não dormia e costumava acordar os auxiliares a qualquer hora da noite me angustiavam.

Era tudo verdade! Passei 90 dias cruzando o País de Norte a Sul acompanhando Maciel candidato a presidente. Quando a pauta era no Norte – e naquela época ainda existiam territórios (Acre, Roraima e Amapá) – os voos da Vasp, única companhia que fazia as rotas daquela região – eram todos pela madrugada.

Passei muitas horas de voo insone para chegar em Manaus, Belém, Rondônia e todos os territórios mapeados para contatos políticos na agenda de Maciel. O alvo do candidato eram os deputados federais e estaduais, com direito a voto no Colégio Eleitoral, mas católico fervoroso, ele sempre incluía uma visita ao arcebispo do Estado em que estivesse.

Meus textos produzidos eram enviados para Marco Aurélio Pereira, chefe de Imprensa da campanha de Maciel em Brasília. Geralmente, eu chegava ao destino que Maciel iria cumprir um ou até dois dias antes, para fazer o mapa eleitoral das bancadas, entrevistas e confirmar as visitas do candidato às redações dos jornais e emissoras de televisão.

Certo dia, tomei uma carraspana em Manaus e perdi a hora, queimando a visita de Maciel ao arcebispo, marcada às sete da matina. Acordado em Brasília pelo ajudante de ordens de Maciel, Marco Aurélio já havia feito dezenas de ligações para o hotel sem chances de me encontrar. Só vim a me incorporar à comitiva às 10 da manhã, na visita aos deputados na Assembleia Legislativa.

Lei um tremendo puxão de orelha, claro, só não esperava a reação de Maciel, que não esqueço nunca. Educadamente, só fez um comentário:

“Magno, já me disseram que você, embora sertanejo, não acorda muito cedo, mas falte tudo na minha agenda, menos aos compromissos com a Igreja”.

Só ai compreendi a religiosidade de Maciel e já em outra fase da sua vida pública, candidato a senador, testemunhei as negociações do coronel Tarcísio, um dos coordenadores da campanha de Joaquim a governador, para antecipar em meia hora uma missa numa cidade do interior para ele (Maciel) cumprir sua obrigação dominical e comungar. (Depois conta essa história aqui)

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