Josias de Souza
Numa Brasília mais lógica, ou pelo menos numa Capital mais simples, o favoritismo de um candidato do PMDB à presidência da Câmara atearia em Michel Temer, presidente do partido e vice-presidente da República, um entusiasmo retumbante. Se o favorito se chama Eduardo Cunha, porém, Temer é tomado de preocupação latente.
Numa entrevista com Temer, os repórteres Leandro Loyola e Flávia Tavares perguntaram ao vice o que acha do blocão suprapartidário que o líder do PMDB articula para dar suporte ao seu projeto de comandar a Câmara.
E Temer: “Falando como presidente do PMDB, ele tem de ser um candidato que revele a independência do Poder Legislativo; mas, ao mesmo tempo, que não seja de oposição prévia ao governo federal. A Constituição, embora as pessoas falem muito em independência, determina que os poderes sejam independentes e harmônicos entre si. Essa harmonia, temos de recuperar.”
Indagou-se de Temer se acha que Eduardo Cunha é capaz de obter a “harmonia” entre a Câmara e o Executivo. “Acho que ela será obtida seja quem for o presidente”, respondeu o número 2 de Dilma Rousseff, como se não fizesse muita questão do sucesso do companheiro de partido.
A eleição do novo presidente da Câmara ocorrerá em feveriro de 2015. Do modo como falou, Temer parece contemplar a hipótese de uma reviravolta. Acha que Eduardo Cunha talvez tenha saído na chuva muito cedo.
“Nas três vezes em que fui candidato à presidência da Câmara, uma ou duas semanas antes aparecia uma outra candidatura que tumultuava o ambiente eleitoral. Muitas vezes, lançar a candidatura muito antes não é útil. Cada um tem seu estilo. Ele está no direito dele, legítimo, de se lançar candidato. Ele diz que ainda não se lançou, que está sondando. Mas tem o direito de trabalhar.”
Na última quarta-feira (5), Temer conversou por quase duas horas com Cunha. O que combinaram? “Ele disse que não será oposição, que trabalhará conosco. Disse a ele que, ao longo do tempo, ele revelou certa dissonância, certa discordância, especialmente durante a campanha eleitoral. Ele fez uma declaração que me destituía da presidência do partido. Atribuo isso à inabilidade política, simplesmente isso. Ou, então, achou que eu estava derrotado de uma vez e resolveu ver se me expulsava do partido desde já! [risos] Tive de dar uma resposta dura. Ele disse que a intenção não foi essa, justificou-se.”
Noutros tempos, Cunha costumava ser qualificado como membro do grupo de Temer na Câmara. Hoje, os dois se estranham em praça pública. Talvez saibam de coisas que a plateia apenas suspeita. Brasília anda mesmo muito ilógica de uns tempos pra cá. Num jogo em que ganhou ares de dono da mesa e dos tacos, com um blocão de partidos a engrossar a torcida, o líder do PMDB é tratado pelo presidente do PMDB quase como bola sete.
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