
Se é verdade que política e família não trilham o mesmo caminho, o ex-governador Eduardo Campos levou a vida a desmoralizar esta tese. Desde o voo político mais curto ao mais alto, sempre procurou deixar claro, na prática, que aonde fosse, por mais longe que fosse, teria sempre um sólido fio ligando-o aos filhos e à mulher com a qual dividiu a existência, Renata. Era um pai que resistia a ser apenas o homem obstinado por metas e sonhos e, portanto, um político diferente dos outros, que espontânea e explícitamente se prendia aos maiores afetos. Comportava-se como se nenhuma conquista fizesse sentido, se não voltasse com ele para casa e lá fosse partilhada.
Daí porque o sentimento de perda diante da tragédia não se limita apenas ao campo político e à consciência de que o estado foi privado de prosseguir sob o pulso firme de um líder com luz própria. É a referência familiar que provoca aperto no peito e faz o desaparecimento súbito do ex-governador ganhar outro contorno e dimensão. Algo como se além do guerreiro e da espada, a falta incorporasse a desconstrução de um modelo que fazia a política parecer mais humana, bem próxima do cidadão mais simples, aquele que reserva à família o lugar de honra em sua vida.
Provas de que o hábito de trabalhar com um olho na política e outro no “ninho” produzia resultados não faltaram, mas a última delas, vinda a público no dia do aniversário de 49 anos do ex-governador, também Dia dos Pais, deu a dimensão exata deste reconhecimento. Os cinco filhos do casal se reúnem em um vídeo onde os quatro mais velhos, cada um da forma mais emocionada, declara ao pai, além da admiração pelo político que foi, amor em letras graúdas.
Menos de sete meses antes, a imagem do homem que acompanhava a esposa no parto do quinto filho e que depois do nascimento beijava seguidamente o menino, dando-lhe as boas-vindas mais calorosas, já havia ganho as páginas de jornais e redes sociais numa repercussão surpreendente. O fato de a criança ser portadora da Síndrome de Down bem que poderia, no figurino das campanhas eleitorais rasteiras ao qual o Brasil se acostumou, gerar ganhos para a imagem política do candidato. No entanto, em lugar do personagem sob o qual se acendiam os holofotes do poder, se impôs a figura do pai que prometia cuidar e amar o último da prole com a mesma força.
E na despedida, ficou reservado para o pequeno Miguel o privilégio de desfrutar da companhia do pai, de quem se separou na mesma manhã do acidente, na companhia da mãe, Renata. Quanto a ela, cuja opinião sempre foi muito levada em conta pelo companheiro, coube a tarefa mais árdua e doída – a de, a despeito do espanto e da dor, fazer papel de pai e mãe para amparar a fragilidade dos filhos diante do luto e participar da preparação da cerimônia de despedida, quando os restos mortais forem trazidos a Pernambuco.
Naquele momento, também deverá ser a imagem do pai e não a do homem público, aquela com poder para tocar mais de perto o coração dos pernambucanos, embora Campos se vá sem ter deixado um sucessor e isto significa decréscimo político para Pernambuco. Certo mesmo é que será quase impossível, nos funerais, com os afetos de Eduardo Campos dividindo ali a dor da última hora, não lembrar do vídeo familiar de aniversário sem a única conclusão possível – a vida é um sopro, como bem disse (Oscar) Niemeyer, já bem perto do fim.
Fonte: Diário de Pernambuco (Facebook)
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