Liberais no conclave não haverá. A tendência conservadora se vê em quem indicou os que escolherão o próximo pontifice: quase 70 dos 115 eleitores chegaram pelas mãos do papa emérito Bento XVI e os demais pelas de João Paulo II. Mas se não é possível vencer apenas com os de linha dura mais dura, tampouco é plausível triunfar sem eles.
Na divisão geográfica, são 60 europeus, 19 latino-americanos, 14 norte-americanos, 11 africanos, 10 asiáticos e um australiano. Dentro desses mesmos grupos, muitas vezes o que une os cardeais é a origem. Desgosto pessoal ou divergências teológicas costumam afastá-los.
De qualquer forma, o vencedor terá de extrapolar questões paroquiais. Um candidato que fosse exclusivo da Cúria Romana, como a mídia italiana tem pintado o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, teria certamente menos chances de vencer do que um postulante que concilie moderados e conservadores de fora do Vaticano.
Já um italiano, como o arcebispo de Milão, cardeal Angelo Scola, não poderia abrir mão dos votos de fora do Velho Continente, ainda que a presença europeia seja tão preponderante entre os votantes. Ainda há, na possibilidade de um impasse entre duas candidaturas fortes, o surgimento de uma terceira via para resolver a disputa.
Os especialistas em Vaticano indicam que o caminho para a vitória, embora complexo, dificilmente se abrirá sem apoio na administração da Igreja Católica: a Cúria. Ela conta com 38 votantes. A indicação de como se dividem os gestores do Vaticano tende a aparecer já na primeira votação, como a que ocorreu esta tarde.
Isso viabiliza uma primeira rodada de observação, a ser discutida no jantar.
Como os membros da Cúria convivem diariamente, seus votos estão mais amadurecidos do que o dos cardeais que vêm de fora da Itália e precisam de mais contato com os candidatos.
A decisão para a escolha de um novo papa também pode passar pela indicação do número dois, o secretário de Estado do Vaticano. Por hora, o homem mais citado para essa função é o prefeito da Congregação para Igrejas Orientais, o ítalo-argentino Leonardo Sandri, também papabile. Se não vencer, ele pode ter apoio o bastante para despejar votos em quem possa ser eleito.
São tantos interesses diferentes a conciliar que, vença quem vencer, haverá por merecer ser chamado de pontífice -- aquele que é ponte.
Maurício Savarese, jornalista, está em Roma como enviado especial do Blog do Noblat para cobrir a eleição do novo papa.
Do Blog de Ricardo Noblat.
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