segunda-feira, 4 de março de 2013

"MEU ENCONTRO COM RATZINGER" - POR DOM BERNARDINO MARCHIÓ


Encontrei pela primeira vez o cardeal Joseph Ratzinger em julho de 1995. Nós bispos do Regional NE II estávamos em Roma para a visita ‘‘ad limina” (encontro com o papa, naquele tempo João Paulo II).


Dom Bernardino Marchió
Bispo Diocesano

Lembro ainda hoje as impressões daquele momento: a imprensa mundial passava para todos a imagem do cardeal Ratzinger como um grande defensor da fé católica, pronto também a excomungar quem não seguisse as orientações da Igreja. Também no Brasil, teólogos e até bispos nos transmitiam informações pouco favoráveis ao cardeal defensor da fé! Na verdade, desde o primeiro momento, o cardeal Ratzinger nos acolheu com muito calor humano e simplicidade, deixando a expressão de um homem de Deus.

E a mesma impressão se renovou na visita ‘‘ad limina” que realizamos em setembro de 2002, depois que Ratzinger se tornou Bento XVI. Em 2005, tive a oportunidade de encontrá-lo muitas vezes, seja em Roma, como nas Jornadas Mundiais da Juventude, na Alemanha ou na Espanha. Gostaria, porém, de destacar um encontro extraordinário na Fazenda da Esperança em Guaratinguetá (SP). Foi nessa ocasião que o papa quebrou todo o protocolo para estar no meio dos jovens dependentes químicos. Um ato de coragem, mas sobretudo de confiança de um pai que quer estar no meio dos seus filhos mais sofridos.

E teria muito mais para relatar sobre Bento XVI: agora que ele renuncia, cada vez mais a sua figura oferece na sua grandeza de alma, e continua a nos ofertar o caminho de Deus. Nesses dias muitos falam do papa, a maioria nunca leu um discurso, uma homilia ou uma encíclica, mas se acha no direito de criticar e de condenar a ação do papa. Eu prefiro ficar com o comentário de um jovem de 23 anos que assim escreveu:

“O senhor Ratzinger renunciou ao papado porque é o que ele fez a sua vida inteira. O papa renunciou a uma vida normal. Renunciou a ter uma esposa. Renunciou a ter filhos. Renunciou a ganhar um salário. Renunciou à mediocridade. Renunciou às horas de sono, em troca de horas de estudo. Renunciou à comodidade de dias livres. Renunciou à vaidade. Renunciou a se defender contra os que o atacavam. Pois bem, para mim a coisa é óbvia: o papa é um sujeito apegado à renúncia.

E hoje ele volta a demonstrá-lo. Um papa que renuncia a seu pontificado, quando sabe que a Igreja não está em suas mãos, mas na de algo ou alguém maior, parece-me um papa sábio. Ninguém é maior que a Igreja. Nem o papa, nem os seus sacerdotes, nem seus leigos, nem os casos de pederastia, nem os casos de misericórdia. Ninguém é maior do que ela. Porém, ser papa a esta altura da história, é um ato de heroísmo (destes que se realizam diariamente em meu país e ninguém nota). Eu me lembro sem dúvida da história do primeiro papa. Um tal… Pedro. Como foi que morreu? Sim, crucificado como o seu mestre, só que de cabeça para baixo.

Nos dias de hoje Ratzinger se despede da mesma maneira. Crucificado pelos meios de comunicação, crucificado pela opinião pública e crucificado pelos seus próprios irmãos católicos. Crucificado na humildade, essa que custa tanto a entender. É um mártir contemporâneo, destes a respeito dos quais inventam histórias, destes que são caluniados, destes que são acusados e não respondem. E quando responde, a única coisa que fazem é pedir perdão. ‘Peço perdão por minhas faltas.’”
 
Por Jornal de Caruaru

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