sexta-feira, 27 de abril de 2012

ARTE - OBRA PRIMA

Enviado por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa -
Obra-Prima do Dia (Semana de El Greco)
Pintura: A Abertura do Quinto Selo (1608/1614)

O quadro que encerra esta breve recordação do que El Greco representa para as artes, é A Abertura do Quinto Selo ou A Visão de São João. Foi o último quadro pintado por ele e é uma síntese de toda a sua arte: o espaço é gerado na imaginação; a luz é incandescente, contida e irreal; as cores são puras, luminosas e sobrenaturais; as figuras alongadas, evocadas e desmaterializadas. Todas são iluminadas e despertadas pela graça divina, evocando as almas.


As pinceladas largas desse quadro são uma característica do estilo que El Greco adotou por último. Ele o pintou para um altar lateral da Igreja de São João Batista, que fica do lado de fora dos muros de Toledo.

O tema, tirado do Livro do Apocalipse, mostra as almas dos mártires perseguidos clamando a Deus por justiça na terra. A figura de São João domina o quadro; atrás dele as almas nuas se contorcem em um desespero que beira o caos enquanto esperam receber as vestes brancas da salvação.

Assim como em outra tela feita para a mesma igreja, O Concerto dos Anjos, a parte de cima foi cortada, o corte é nítido. Peritos e curadores de arte creem que a parte de baixo, a que hoje conhecemos, mostra o amor profano, enquanto que a do alto, que desapareceu, mostrava o amor divino.

No século 19 a obra pertencia ao Primeiro Ministro Espanhol Antonio Cánovas del Castillo. Aborrecido com o estado da tela, já ruim, ele a enviou a um restaurador. Foi esse artesão quem cortou cerca de 175 centímetros da parte de cima, deixando a figura de São João apontando para o nada. Há quem sustente que a parte cortada mostrava a Abertura do Quinto Selo, dos sete contidos no Livro do Apocalipse.

Historiadores de arte do século 19 deixaram citações e teses sobre El Greco sem levar em conta o ambiente estético, teológico e poético do tempo em que El Greco viveu e, sobretudo, sem procurar compreender as particularidades da Toledo mística de então. Alguns chegaram a dizer que ele era louco, míope, megalômano, bravateiro, que só se preocupava em chocar.

Foi só depois da morte de Cánovas, quando a tela foi vendida a terceiros até chegar às mãos de Ignácio Zuluaga, um pintor espanhol, que o interesse dos grandes centros europeus pela pintura de El Greco foi reavivado.

Zuluaga mostrou a obra a Picasso, a Rainer Maria Rilke, o grande poeta alemão, e a outros intelectuais parisienses que logo perceberam a injustiça sofrida por El Greco, a reputação vilipendiada desde sua morte até o início do século 20.

Agora já não há quem discuta: El Greco tem seu lugar especial e destacado na História da Pintura – é um de seus gênios.

Em 7 de abril de 1614 El Greco faleceu, em Toledo. Seu corpo foi enterrado na Igreja de São Domingos, o Velho.
Do Blog de Ricardo Noblat

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